6 momentos em que Machado de Assis antecipou descobertas da ciência moderna

 Entre sanidade, responsabilidade, poder e diagnóstico como instrumento de exclusão, contos machadianos expunham dilemas da atualidade

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No dia 21 de junho seria comemorado o 187º aniversário de Machado de Assis, grande escritor brasileiro, considerado o pai do realismo. Quase 200 anos depois, sua obra permanece fonte de pesquisas e seus textos seguem provocando reflexões sobre a sociedade, os hábitos e a mente do ser humano.

No livro “Machado de Assis: a loucura e as leis” (Matrix Editora), o psiquiatra e professor da USP, Daniel Martins de Barros disseca 12 contos machadianos e reflete sobre a natureza humana no encontro entre Literatura, Psiquiatria e Direito. A cada capítulo, ele propõe não apenas um exercício literário, mas uma investigação sobre como a “desrazão” serve de espelho para dilemas éticos e científicos atuais.

Mais do que meramente retratar personagens de seu tempo, Machado demonstrou uma percepção aguçada da psique humana e das dinâmicas sociais. Em diversos contos, antecipou conceitos que a ciência e as leis só viriam a formalizar ou debater décadas depois.

Confira abaixo alguns dos momentos em que o escritor se antecipou à ciência moderna.

  1. Antecipação à Psiquiatria e à Psicologia

Em O anjo Rafael, escrito em 1869, Machado descreve com precisão clínica um caso de psicose induzida, também chamada de folie à deux. Nesse quadro, o delírio de uma pessoa é transmitido a outra, saudável, em razão do isolamento e de laços estreitos. 

A narrativa antecipou em oito anos a primeira descrição formal do transtorno na literatura médica, feita pelos médicos Lasègue e Falret apenas em 1877.

Já em O Lapso, escrito em 1884, o exemplo se dá no tratamento aplicado pelo Dr. Jeremias Halma ao personagem Tomé Gonçalves.

As técnicas de exposição e recondicionamento da razão usadas pelo médico se aproximam do que viria a ser conhecido, quase cem anos depois da publicação do conto, como a Terapia Cognitivo-Comportamental.

  1. O cérebro dá pistas sobre nossas decisões

No conto A ideia do Ezequiel Maia, também publicado em 1883, o caminho foi outro, mas também surpreendente: Machado abordou questões que hoje fazem parte das pesquisas da neurociência sobre moralidade e tomada de decisões. A ideia de tornar a consciência visível por meio de uma espécie de registro imagético foi visionária e talvez tenha sido uma das primeiras sugestões de que seria possível registrar os pensamentos na forma de imagens.

Hoje, técnicas modernas de neuroimagem, como a ressonância magnética, ajudam na análise da atividade cerebral e podem ser úteis durante julgamentos e dilemas éticos, por exemplo.

Machado explorou também o poder do inconsciente, no conto Entre Santos, de 1886, ao relatar sobre a força e influência dos pensamentos na tomada de decisões dos indivíduos. O conto antecipa em cem anos estudos sobre vieses cognitivos que renderiam o Prêmio Nobel ao psicólogo Daniel Kahneman.

  1. Vício, desejo e recompensa

A complexa relação entre comportamento, desejo e compulsão aparece em Uma Partida, conto de 1892 em que o Bruxo do Cosme Velho antecipou-se à psicanálise ao estabelecer uma ligação entre vício em jogos (jogo patológico) e impulsos sexuais.

Essa associação foi teorizada por Freud apenas em 1927. Para a moderna neurobiologia dos desejos, ambos os comportamentos são mediados pelo mesmo sistema de recompensa e bem-esta, associado à dopamina no cérebro.

  1. Criminalidade e bioética

Em outro registro de 1883, o Conto Alexandrino, o pai do realismo brasileiro descreveu a busca por uma causa biológica para o comportamento criminoso e os dilemas éticos de experimentos com prisioneiros vivos.

O conto antecipa em quase um século discussões bioéticas e literárias sobre o controle científico do comportamento violento.

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Muito além da literatura

Vistos em conjunto, esses textos mostram que a atualidade de Machado não está apenas em sua importância literária.

A forma como seus textos de ficção continuam a interrogar zonas cinzentas da mente, da moral, da ciência e da lei ainda poderão render muita investigação.


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