A história "Sou autista! E agora?", é uma obra em quadrinhos, que conheci por acaso, pelo instagram, e logo me interessei na obra criada pela autora e designer Camila Batista, e pasmem, é baseada em fatos reais!
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| Capa do Hq "Diferenciados em Sou autista! E agora?", da autora Camila Batista Reprodução: instagram @terapiaenquadrinhos |
O Hq conta a história de Yuri, um personagem que recebeu a pouco tempo, em sua adolescência, o diagnóstico de TEA ou Transtorno do Espectro Autista. E como todo jovem, adolescente, Yuri compartilha como se sentia em relação a um mundo, onde tudo era diferente, e ele, se sentia um esquisito, mas não sabia explicar o por que daquele sentimento. E no final, tudo era confuso e bem triste!
Tudo parece ser distante, e os sentimentos não só de Yuri, mas de quem faz parte do espectro, era ter necessidades e vontades, mas não saber explicar as pessoas em sua volta, que ele gostaria de estar, ou se sentir parte, e mesmo que ele fizesse um esforço ou que as pessoas a sua volta tentassem inclui-lo, que tudo aquilo gerava uma sobrecarga além do que ele poderia suportar, e por conta disto, muitas vezes, eles mesmo evitava e "sempre estava mais na dele".
"Sempre estava mais na minha...
Focado nas minhas coisas, nos meus jogos, desenhos, séries, livros...
Pesquisava tudo sobre os assuntos que me interessavam. Gostava de viver no meu mundo.
Do meu jeito... Chamava isso de estilo de vida!"
Yuri, em Sou autista! E agora? p. 3.
O quadrinho de Camila Batista, também relata um pouco sobre os problemas relacionados a sobrecarga, onde Yuri ficava nervoso e bastante irritado com os mais diversos estímulos sensoriais, que um ambiente que é normalmente tolerável por uma pessoa típica, passa a ser um desafio para queles que possuem uma hipersensibilidade. Mas como saber quais são os estímulos que podem gerar uma crise em uma pessoa atípica e que muitas vezes possamos nem entender?
Ambientes com muito barulho, gritos, multidões, cheiros, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e com o atípico, pessoas tocando... Tudo isso é sentido de maneira muito mais intensa por uma pessoa que é autista, e esse tipo de estímulo, pode gerar crises, onde sinta raiva, ansiedade, choros, agressividade, e tudo isso, é resposta do seu corpo e organizo, como um mecanismo de defesa, e ninguém que passa por este tipo de situação está agindo por falta de educação ou por má intenção. E no final, ao passar pela crise, percebem o que fizeram e acaba sentindo arrependimento. Por isso é muito importante ter empatia e saber acolher, respeitar, e não julgar em um momento como esses.
Outro ponto muito importante no quadrinho, é quando Yuri apresenta a sua seletividade alimentar. E o que seria a seletividade alimentar de uma pessoa no espectro autista?
Segundo estudos publicados sobre TEA, a seletividade alimentar, afeta cerca de 40% a 80% de crianças que fazem parte do Transtorno do Espectro autista (TEA) e está ligada a hipersensibilidade a textura, cheiro, cor e temperaturas e à rigidez comportamental. Isso significa que quem possui TEA, pode apresentar resistencia a determinados tipos de alimentos e que isso não é frescura!
"Detestava quando me forçavam a comer algo que eu não queria!"
Yuri, em Sou autista! E agora? p. 5.
E é tão importante levarmos a sério essas condições, pois muitas vezes, eles são comportamentos diferentes do habitual e que acabamos deixar passar, por acreditar ser algo momentaneo, "coisa de fase na vida da criança", mas que poderiam ser avaliados por um médico especializado.
Seletividade alimentar*
não é só uma fase e muito menos frescura
Há pouco tempo, também recebi uma notícia semelhante a do Yuri. Um médico que acompanha uma pessoa próxima, recomendou que ela fizesse uma avalição especializada em TEA, pois tudo que foi respondido e observado por ele nas consultas de rotina dela, indicavam a um possível, e futuro diagnóstico. E por meses, em acompanhamento especializado por psicólogos, neurologistas, psiquiatra e etc, com avaliações, tudo indica que sim, e as condições, são bem parecidas com as relatadas pelo Yuri na história em quadrinho "Sou autista! E agora?". E até chegar nessa identificação, pensamos em quantos anos levaram até compreender as suas necessidades, todas as seletividades e momentos de crises, que foram mal compreendidas pelas pessoas a sua volta e até por ela mesma, pois não fazia ideia de que as suas diferenças, pudessem ser por conta de uma condição do neurodesenvolvimento e genético, invés do que muitas vezes fora taxado como frescura. E quando não somos capazes de entender, não buscamos pesquisar para aprender sobre o assunto, o melhor que podemos fazer é escutar, respeitar e aceitar que é preciso adaptar o que pessoas dentro do espectro autista precisam.
" Tinha muita dificuldade em manter amigos e relacionamentos, alguns se afastavam de mim por eu sempre recusar convites, com outros eu tinha dificuldades em interagir, porque ou os assuntos deles não me interessavam, ou eu falava demais sobre os meus...Algumas pessoas me irritavam, até pelo timbre ou volume de voz..."
Yuri, em Sou autista! E agora? p. 6.
Outra situação muito presente na vida de pessoas no Transtorno do Espectro Autista, é a dificuldade em interações sociais. Isso porque eles possuem muita dificuldade em interagir socialmente, ao iniciar uma conversa, em dar continuidade a assuntos, por optar em serem muito sinceros e diretos em suas respostas, ou encerrar conversas, mudando o assunto, e isto pode provocar a impressão a outras pessoas, de que talvez, a pessoa do epectro autista, esteja deseinteressado em manter a conversa com ele. É muito comum, ao conversar com um TEA, observar que eles são muito focados em determinados assuntos, como: gostar muito de dinossauros, ou falar de geografia, ter um desenho específico mo o seu favorito e passar horas empolgado falando daquilo, sem parar, e perceber, que ás vezes as outras pessoas não entenderam nada sobre o que ele estava contando.
Um sentimento de inadequação e vigilância constante,
que gera um sentimento invisivel muito profundo.
Muito conhecido como ansiedade social e exaustão social por
mascaramento (masking)*
*masking: significa o esforço consciente ou inconsciente que uma pessoa autista faz para esconder suas características neurodivergentes e imitar comportamentos neurotípicos para tentar se "encaixar" na sociedade
Como também, pode existir aquele tipo de autista, que é muito mais quieto que as pessoas a sua volta, ser muito direto e falar brevemente sobre o que lhe é perguntado e parecer uma pessoa curta e grossa, pois existe uma dificuldade em interagir no momento, ao qual ele raciocinia, pensa de diversas formas como poderia reagir a uma determinada situação, mas o seu raciocinio é tão ligeiro, que o seu corpo e fala, acabam não aocmpanhando ou organizando o que necessariamente deveria ser oralizado no momento. E isto pode causar muita ansiedade e frustração na pessoa, que tenta de todas formas fazer parte de algo, que ela não compreende ou não consegue expressar... e muitas vezes pensa tanto no que os outros pensam a seu respeito ou em como eles reagiriam as suas atitudes, que no final das contas, elas desistem de tentar.
O medo de errar, de ser julgado e mal interpretado, são os maiores dilemas do autista perante a sociedade. E isso reflete na sua saúde, que além de muitos problemas relacionados a hipersensibilidade, ele fica sobrecarregado emocionalmente, com crises ansiosas, com baixa autoestima, depressivo e com outros problemas psicológicos, que agravam ainda mais a situação da pessoa autista. E claro, isso reflete na saúde física, também.
Na história em quadrinhos, o personagem Yuri, que é inspirado no filho da autora Camila Batista, ele conta a sua experiência com um colega de escola, que fazia bullying com quem era diferente ou fora dos padrões impostos da sociedade, e o quanto isto lhe incomodava. E ao contrário do que muita gente pensa, quem é autista, compreende algumas formas de agressões e injustiças que ocorrem, tanto com eles, quanto com terceiros.
Autistas possuem senso de justiça e se engana quem pensa que eles não entendem quando passam por situações de humilhaçoes ou escutam comentários capacitistas sobre a sua condição.
Muitas vezes, a dor da injustiça, por passar por uma situação de humilhação ou de presenciar algupem na mesma condição ou alguém que é diferente do que a sociedade impõe, é o bastante para que uma pessoa autista reaja de maneira não esperada, demonstrando raiva, falando mais que o normal e até agredindo o autor da agressão.
E vale lembrar, que quando falamos de agressões, existem diversas formas de agredir alguém, como:
Agressão Física: onde há o contato corporal, com socos, tapas, chutes e empurrões.
Agressão Verbal: a mais comum de se presenciar em casa, na rua e até mesmo na escola, onde pessoas se aproveitam da vulnerabilidade do outro e o tornam alvo de xingamentos, humilhações públicas, ofensas e insultos.
Agressão Moral: Também muito comum em qualquer campo, seja ele social e até mesmo no profissional, as pessoas usam de apelidos, discriminam, cometem calúnias (acusar alguém falsamente de cometer um ato) ou difamá-lo (acusar falsamente alguém um fato que ofende a sua reputação na sociedade).
Agressão Psicológica: A vítima é sempre culpada por algo que não fez ou possui controle, e o agressor faz de tudo para prejudicar a imagem do acusado e expõe a vítima, para que reproduzam a agressão, acreditando em sua mentira.
Agressão Sexual: A violência sexual não ocorre apenas e a partir de contato físico. Ela pode ser através de insultos de natureza sexual (gestos, comentários e insinuações sobre a vítima). da qual intimidam, constrangem e ferem a vítima. Caracterizando assédio e crime.
CyberBullying: E por ultimo, e não menos importante, a violência que é cometida na esfera virtual e redes sociais. Instagram, Facebook, Whatsapp, Discord, jogos online, etc. Qualquer exposição que seja feita e sejam reproduzidos apelidos, xingamentos, perseguição, deboches com a imagem alheia, por mensagens, fotos e vídeos, é cyberbullying e hoje, no Brasil, é crime, previsto no Código Penal (Artigo 146-A).
" Não ligue para o que os outros falam.
Quem tem problemas são eles e não você!
Você é um garoto legal, inteligente e cheio de qualidades ...
Seu valor não está em quanto você pesa,
mas em quem você é! É normal ficar chateado
mas o segredo é não se importar com a opinião alheia, principalmente de alguém que é capaz de
humilhar os outros..."
Yuri, em Sou autista! E agora? p. 13.
ESPECTRO significa uma ampla variedade de comportamentos, características e níveis de intensidade que variam de pessoa para pessoa
E além dos amigos e familiares, a escola deve ter o acompanhamento profissional, de uma equipe pedagógica, que atua como uma ponte entre o aluno TEA, os professores, colegas e até mesmo com a família. Prevenindo situações de sobrecargas, identificando os sinais de exaustão sensorial ou cognitivas dentro do ambiente escolar, para evitar crises e atender prontamente o aluno afim de intervir. E o objetivo do profissional de apoio, não é criar dependência no aluno, mas construir ferramentas que ajude o aluno a se desenvolver gradualmente e se tornar uma pessoa com autonomia, para que ela possa expandir e aos poucos criar vínculos, ampliar seu circulo de interações e de apoio na sociedade.
" Yuri, você já pensou em fazer terapia?"
Celina, em Sou autista! E agora? p. 21.
Mais do que uma HQ, "Sou autista! E agora?" nos lembra que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com sentimentos, desafios, sonhos e uma forma única de enxergar o mundo. A jornada de Yuri mostra o quanto o acolhimento, a informação e o respeito podem fazer diferença na vida de alguém. É uma leitura que convida à reflexão e ajuda a compreender melhor as vivências de quem faz parte do espectro autista.
Em tempos em que ainda existe muito preconceito e desinformação, histórias como essa nos ensinam algo simples, mas essencial: ouvir, compreender e respeitar as diferenças.





















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