Autismo na Adolescência: diagnóstico, CID-11, inclusão escolar e a HQ "Sou Autista! E Agora?" - Keep N Pop

domingo, 31 de maio de 2026

Autismo na Adolescência: diagnóstico, CID-11, inclusão escolar e a HQ "Sou Autista! E Agora?"


O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é apenas uma forma diferente e única de o cérebro processar o mundo, influenciando como a pessoa se comunica e interage. Por ser um espectro, ele se manifesta de várias formas. Hoje, a medicina organiza essa diversidade em três níveis de suporte, baseados em quanta ajuda a pessoa precisa no dia a dia:

Nível 1 (Suporte Leve): Desafios na comunicação e interação social, mas com maior autonomia. É aqui que entra o que antigamente chamávamos de Síndrome de Asperger. Um termo que mudou para que todos fossem acolhidos sob o mesmo nome.

Nível 2 (Suporte Moderado): As barreiras e comportamentos repetitivos são mais visíveis, exigindo um apoio maior.

Nível 3 (Suporte Severo): Grandes dificuldades na fala e na independência, demandando suporte intenso e contínuo.

Entender esses níveis nos ajuda a acolher a pessoa real 
por trás do comportamento, sem julgamentos.


Agora imagine ...
Se descobrir no espectro já é um processo intenso, receber esse diagnóstico na adolescência traz um peso ainda maior. 

Essa já é uma fase naturalmente confusa, cheia de pressões para se encaixar em grupos, cobranças escolares e mudanças no corpo. Para o adolescente autista, a sensação de "não pertencer" ou de ser "esquisito" é amplificada ao máximo. É a fase em que o esforço para camuflar os traços e parecer neurotípico gera um esgotamento invisível e doloroso.


Descobrir o autismo nesse momento da vida é um misto de choque pelo desconhecido, mas também de um alívio profundo ao finalmente entender que nunca houve nada de errado com ele e de que havia apenas uma mente única tentando sobreviver em um mundo que nem sempre sabe acolher as diferenças.


A história "Sou autista! E agora?", é uma obra em quadrinhos, que conheci por acaso, pelo instagram, e logo me interessei na obra criada pela autora e designer Camila Batista, e pasmem, é baseada em fatos reais! 


Capa do Hq "Diferenciados em Sou autista! E agora?", da autora Camila Batista 
Reprodução: instagram @terapiaenquadrinhos

O Hq conta a história de Yuri, um personagem que recebeu a pouco tempo, em sua adolescência, o diagnóstico de TEA ou Transtorno do Espectro Autista. E como todo jovem, adolescente, Yuri compartilha como se sentia em relação a um mundo, onde tudo era diferente, e ele, se sentia um esquisito, mas não sabia explicar o por que daquele sentimento. E no final, tudo era confuso e bem triste!


Tudo parece ser distante, e os sentimentos não só de Yuri, mas de quem faz parte do espectro, era ter necessidades e vontades, mas não saber explicar as pessoas em sua volta, que ele gostaria de estar, ou se sentir parte, e mesmo que ele fizesse um esforço ou que as pessoas a sua volta tentassem inclui-lo, que tudo aquilo gerava uma sobrecarga além do que ele poderia suportar, e por conta disto, muitas vezes, eles mesmo evitava e  "sempre estava mais na dele". 



"Sempre estava mais na minha...

Focado nas minhas coisas, nos meus jogos, desenhos, séries, livros...

Pesquisava tudo sobre os assuntos que me interessavam. Gostava de viver no meu mundo. 

Do meu jeito... Chamava isso de estilo de vida!" 

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 3.





O quadrinho de Camila Batista, também relata um pouco sobre os problemas relacionados a sobrecarga, onde Yuri ficava nervoso e bastante irritado com os mais diversos estímulos sensoriais, que um ambiente que é normalmente tolerável por uma pessoa típica, passa a ser um desafio para queles que possuem uma hipersensibilidade. Mas como saber quais são os estímulos que podem gerar uma crise em uma pessoa atípica e que muitas vezes possamos nem entender? 



Ambientes com muito barulho, gritos, multidões, cheiros, muitas pessoas falando ao mesmo tempo e com o atípico, pessoas tocando... Tudo isso é sentido de maneira muito mais intensa por uma pessoa que é autista, e esse tipo de estímulo, pode gerar crises, onde sinta raiva, ansiedade, choros, agressividade, e tudo isso, é resposta do seu corpo e organizo, como um mecanismo de defesa, e ninguém que passa por este tipo de situação está agindo por falta de educação ou por má intenção. E no final, ao passar pela crise, percebem o que fizeram e acaba sentindo arrependimento. Por isso é muito importante ter empatia e saber acolher, respeitar, e não julgar em um momento como esses.


Outro ponto muito importante no quadrinho, é quando Yuri apresenta a sua seletividade alimentar. E o que seria a seletividade alimentar de uma pessoa no espectro autista? 



Segundo estudos publicados sobre TEA, a seletividade alimentar, afeta cerca de 40% a 80% de crianças que fazem parte do Transtorno do Espectro autista (TEA) e está ligada a hipersensibilidade a textura, cheiro, cor e temperaturas e à rigidez comportamental. Isso significa que quem possui TEA, pode apresentar resistencia a determinados tipos de alimentos e que isso não é frescura!


"Detestava quando me forçavam a comer algo que eu não queria!" 

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 5.



E é tão importante levarmos a sério essas condições, pois muitas vezes, eles são comportamentos diferentes do habitual e que acabamos deixar passar, por acreditar ser algo momentaneo, "coisa de fase na vida da criança", mas que poderiam ser avaliados por um médico especializado. 


Seletividade alimentar*

 não é só uma fase e muito menos frescura

Seletividade alimentar: é a rejeição extrema de alimentos baseada na aversão a texturas (como texturas pastosas ou misturadas) e cores (como a preferência exclusiva por alimentos amarelos ou de marcas idênticas). O cérebro autista interpreta o cheiro, o sabor ou a textura de certos alimentos como uma ameaça física real, disparando reações involuntárias de pânico, náusea e rejeição.


Há pouco tempo, também recebi uma notícia semelhante a do Yuri. Um médico que acompanha uma pessoa próxima, recomendou que ela fizesse uma avalição especializada em TEA, pois tudo que foi respondido e observado por ele nas consultas de rotina dela, indicavam a um possível, e futuro diagnóstico. E por meses, em acompanhamento especializado por psicólogos, neurologistas, psiquiatra e etc, com avaliações, tudo indica que sim, e as condições, são bem parecidas com as relatadas pelo Yuri na história em quadrinho "Sou autista! E agora?". E até chegar nessa identificação, pensamos em quantos anos levaram até compreender as suas necessidades, todas as seletividades e momentos de crises, que foram mal compreendidas pelas pessoas a sua volta e até por ela mesma, pois não fazia ideia de que as suas diferenças, pudessem ser por conta de uma condição do neurodesenvolvimento e genético, invés do que muitas vezes fora taxado como frescura. E quando não somos capazes de entender, não buscamos pesquisar para aprender sobre o assunto, o melhor que podemos fazer é escutar, respeitar e aceitar que é preciso adaptar o que pessoas dentro do espectro autista precisam. 



" Tinha muita dificuldade em manter amigos e relacionamentos, alguns se afastavam de mim por eu sempre recusar convites, com outros eu tinha dificuldades em interagir, porque ou os assuntos deles não me interessavam, ou eu falava demais sobre os meus...Algumas pessoas me irritavam, até pelo timbre ou volume de voz..."

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 6.


Outra situação muito presente na vida de pessoas no Transtorno do Espectro Autista, é a dificuldade em interações sociais. Isso porque eles possuem muita dificuldade em interagir socialmente, ao iniciar uma conversa, em dar continuidade a assuntos, por optar em serem muito sinceros e diretos em suas respostas, ou encerrar conversas, mudando o assunto, e isto pode provocar a impressão a outras pessoas, de que talvez, a pessoa do epectro autista, esteja deseinteressado em manter a conversa com ele. É muito comum, ao conversar com um TEA, observar que eles são muito focados em determinados assuntos, como: gostar muito de dinossauros, ou falar de geografia, ter um desenho específico mo o seu favorito e passar horas empolgado falando daquilo, sem parar, e perceber, que ás vezes as outras pessoas não entenderam nada sobre o que ele estava contando. 



Um sentimento de inadequação e vigilância constante, 

que gera um sentimento invisivel muito profundo. 

Muito conhecido como ansiedade social e exaustão social por

 mascaramento (masking)*

*masking: significa o esforço consciente ou inconsciente que uma pessoa autista faz para esconder suas características neurodivergentes e imitar comportamentos neurotípicos para tentar se "encaixar" na sociedade




Como também, pode existir aquele tipo de autista, que é muito mais quieto que as pessoas a sua volta, ser muito direto e falar brevemente sobre o que lhe é perguntado e parecer uma pessoa curta e grossa, pois existe uma dificuldade em interagir no momento, ao qual ele raciocinia, pensa de diversas formas como poderia reagir a uma determinada situação, mas o seu raciocinio é tão ligeiro, que o seu corpo e fala, acabam não aocmpanhando ou organizando o que necessariamente deveria ser oralizado no momento. E isto pode causar muita ansiedade e frustração na pessoa, que tenta de todas formas fazer parte de algo, que ela não compreende ou não consegue expressar... e muitas vezes pensa tanto no que os outros pensam a seu respeito ou em como eles reagiriam as suas atitudes, que no final das contas, elas desistem de tentar. 



" Isso me fazia sentir culpado, inadequado, ansioso, inseguro...

Cada vez mais me fechava no meu mundo..."

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 7.


O medo de errar, de ser julgado e mal interpretado, são os maiores dilemas do autista perante a sociedade. E isso reflete na sua saúde, que além de muitos problemas relacionados a hipersensibilidade, ele fica sobrecarregado emocionalmente, com crises ansiosas, com baixa autoestima, depressivo e com outros problemas psicológicos, que agravam ainda mais a situação da pessoa autista. E claro, isso reflete na saúde física, também.



"Ele fazia BULLYING

com todos que eram diferentes e isso me dava muita raiva!"

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 10.




Na história em quadrinhos, o personagem Yuri, que é inspirado no filho da autora Camila Batista, ele conta a sua experiência com um colega de escola, que fazia bullying com quem era diferente ou fora dos padrões impostos da sociedade, e o quanto isto lhe incomodava. E ao contrário do que muita gente pensa, quem é autista, compreende algumas formas de agressões e injustiças que ocorrem, tanto com eles, quanto com terceiros. 


Autistas possuem senso de justiça e se engana quem pensa que eles não entendem quando passam por situações de humilhaçoes ou escutam comentários capacitistas sobre a sua condição.


Muitas vezes, a dor da injustiça, por passar por uma situação de humilhação ou de presenciar algupem na mesma condição ou alguém que é diferente do que a sociedade impõe, é o bastante para que uma pessoa autista reaja de maneira não esperada, demonstrando raiva, falando mais que o normal e até agredindo o autor da agressão. 



E vale lembrar, que quando falamos de agressões, existem diversas formas de agredir alguém, como: 

Agressão Física: onde há o contato corporal, com socos, tapas, chutes e empurrões.

Agressão Verbal: a mais comum de se presenciar em casa, na rua e até mesmo na escola, onde pessoas se aproveitam da vulnerabilidade do outro e o tornam alvo de xingamentos, humilhações públicas, ofensas e insultos. 

Agressão Moral: Também muito comum em qualquer campo, seja ele social e até mesmo no profissional, as pessoas usam de apelidos, discriminam, cometem calúnias (acusar alguém falsamente de cometer um ato) ou difamá-lo (acusar falsamente alguém um fato que ofende a sua reputação na sociedade).

Agressão Psicológica: A vítima é sempre culpada por algo que não fez ou possui controle, e o agressor faz de tudo para prejudicar a imagem do acusado e expõe a vítima, para que reproduzam a agressão, acreditando em sua mentira. 

Agressão Sexual: A violência sexual não ocorre apenas e a partir de contato físico. Ela pode ser através de insultos de natureza sexual (gestos, comentários e insinuações sobre a vítima). da qual intimidam, constrangem e ferem a vítima. Caracterizando assédio e crime.

CyberBullying: E por ultimo, e não menos importante, a violência que é cometida na esfera virtual e redes sociais. Instagram, Facebook, Whatsapp, Discord, jogos online, etc. Qualquer exposição que seja feita e sejam reproduzidos apelidos, xingamentos, perseguição, deboches com a imagem alheia, por mensagens, fotos e vídeos, é cyberbullying e hoje, no Brasil, é crime, previsto no Código Penal (Artigo 146-A).




" Não ligue para o que os outros falam. 

Quem tem problemas são eles e não você!

Você é um garoto legal, inteligente e cheio de qualidades ...

Seu valor não está em quanto você pesa,

mas em quem você é! É normal ficar chateado 

mas o segredo é não se importar com a opinião alheia, principalmente de alguém que é capaz de

 humilhar os outros..."

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 13.


Assim como há autistas com senso de justiça e podem reagir de maneira inesperada a ações de violência contra si ou contra outras pessoas, há também, pessoas autistas que ficam se reação, guardam para si o que passaram, internalizando seus sentimentos, desenvolvendo medo, baixa autoestima, insegurança, e muitas vezes perdem o desejo de estar em lugares, de socializar, de conversar, de se expressar no geral, pois sentem que não pertencem a nada ou que as pessoas irão julga-los, desacreditar no que ele disser e por fim, acabam se isolando.

" Você está mentindo!

Você não olha nos olhos quando fala!" 

  em Sou autista! E agora? p. 15.




ESPECTRO significa uma ampla variedade de comportamentos, características e níveis de intensidade que variam de pessoa para pessoa


Como o próprio nome ja diz, o espectro abrange uma ampla variedade de comportamentos, características e níveis de intensidade, que variam de pessoa para pessoa, e isto significa que não devemos comparar ninguém, principalmente quando ela diz ter recebido ou estar em processo de avaliação, lhe dizendo que conhece um tal, que é autista e faz coisas que julgam comum no espectro e que o outro não faz e por conta disto, invalida a situação do outro. Esse tipo de situação é muito comum, e além de ser bastante agressivo, pois fere profundamente quem vivencia diariamente na condição, hoje, dependendo da situação e lugar, pode estar cometendo um crime.


O Ministério da Educação determina que escolas públicas e particulares de todo o país não podem exigir laudos ou diagnósticos médicos para matricular alunos ou para disponibilizar o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e profissionais de apoio



Inclusive, segundo informações divulgadas, no ano de 2026, foi incluido na portaria do MEC ( Ministério da Educação), sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a Portaria MEC nº 421/2026, a norma que regulamenta a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI), focada em garantir o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem plena dos estudantes autistas no ensino regular. Todas as informações são acessíveis no mec normas e gov.br.


As principais regulamentações e novidades educacionais incluem:

Fim da obrigatoriedade do laudo: O acesso ao apoio de mediação e recursos em sala de aula passou a considerar as barreiras vivenciadas pelo aluno no dia a dia, e não exclusivamente a apresentação de um documento clínico fechado.

Apoio técnico e financeiro: O MEC atualizou a lista de recursos de tecnologia assistiva financiáveis e promoveu a adesão de escolas com matrículas de estudantes autistas para ampliar de forma qualificada a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Rede Nacional de Educação Especial (Reneei): Estabelecida para estruturar a colaboração entre os sistemas de ensino, assegurando serviços, recursos e formação continuada para professores lidarem com o TEA.


"Eu estou perdido no tempo!"

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 17. 




Na psicologia e na neurodiversidade, a pessoa em quem o individuo com TEA deposita a sua confiança e com quem mais se comunica com facilidade, é conhecida como "âncora", "pessoa de apoio", "porto seguro" ou "pessoa de referência", que são reconhecidas no ambiente escolar, na sociedade ou no ambiente familiar. Esta conexão é muito importante para a pessoa do Transtorno do Espectro Autista, pois auxiliam na regualçao emocional durante momentos de crises, porque eles sabem como agir e entendem os limites do TEA. Podem ajudar em "traduzir" intenções de terceiros ou regras sociais complexas, que o TEA não tenha captado e evita muitos conflitos e desentendimentos com os desavidos da condição do autista. E auxilia na comunicação empática, sem julgamentos, e o autista sente-se mais seguro para interagir sem muita pressão e necessidade do masking. Reduzindo seu cansaço mental e emocional.


"Acho que a única coisa que me motivava a ir pra escola 
era encontrar a Celina. Minha melhor amiga! 
Ela era a única pessoa que me entendia! 
Ela não me achava estranho e acho que ela sabia bem como é ser diferente e excluído!
Ela é incrível!"

Yuri, em Sou autista! E agora? p. 18. 



E além dos amigos e familiares, a escola deve ter o acompanhamento profissional, de uma equipe pedagógica, que atua como uma ponte entre o aluno TEA, os professores, colegas e até mesmo com a família. Prevenindo situações de sobrecargas, identificando os sinais de exaustão sensorial ou cognitivas dentro do ambiente escolar, para evitar crises e atender prontamente o aluno afim de intervir. E o objetivo do profissional de apoio, não é criar dependência no aluno, mas construir ferramentas que ajude o aluno a se desenvolver gradualmente e se tornar uma pessoa com autonomia, para que ela possa expandir e aos poucos criar vínculos, ampliar seu circulo de interações e de apoio na sociedade.


" Yuri, você já pensou em fazer terapia?" 

Celina, em Sou autista! E agora? p. 21. 



Muitos autistas têm dificuldades em realizar tarefas consideradas fáceis e comuns da nossa rotina, como por exemplo:

- Fazer a apresentação de um trabalho na escola;
- Conversar com uma vizinha;
- Comprar algo na padaria;
- Se enturmar em uma festa.

Diante dessas situações, as reações variam: alguns gaguejam, alguns ficam nervosos e acabam falando demais, e outros, já preferem desmarcar encontros do que ter que lidar com a situação.

Algumas pessoas podem notar essas dificuldades e até compreender que a pessoa, que, talvez, nem tenha um diagnóstico ou saiba de sua condição, e precise de um apoio profissional especializado.

É muito comum que pessoas que tenham a sensibilidade, ou por experiência própria, consigam observar e recomendar que eles busquem realizar uma avaliação clínica, através de psicólogos, neurologistas, psiquiatras e outros, que possam encaminhar a uma avaliação detalhada do caso.




Como cada profissional estende a mão e ajuda?

O Psicólogo e o Neuropsicólogo: São os profissionais que passam mais tempo ouvindo e observando o paciente. Através de conversas, testes delicados e sessões de avaliação neuropsicológica, eles conseguem mapear como a pessoa lida com a atenção, a memória e as interações sociais. Eles traduzem esse comportamento em um relatório detalhado que serve de base para todo o resto.

O Psiquiatra: Olha para o bem-estar emocional e para o histórico de vida por inteiro. Ele ajuda a compreender a ansiedade e o esgotamento que vêm desse esforço diário para se ajustar ao mundo, cuidando da saúde mental global e tendo o papel de fechar o diagnóstico clínico.

O Neurologista ou Neuropediatra: Avalia a parte física e o desenvolvimento do sistema nervoso. O papel dele é garantir que não existam outras causas biológicas ou síndromes por trás daquelas dificuldades, trazendo segurança médica e também a autoridade legal para emitir o laudo definitivo.


O CID (Classificação Internacional de Doenças) funciona como uma chave de proteção legal para o autista. Ele deixa de ser apenas uma etiqueta médica para se tornar a garantia oficial de que a pessoa tem direito a suporte 6A02, F84.0.



Ele serve para três coisas fundamentais no dia a dia:

Garantir direitos por lei: Comprova a condição para que a pessoa use as leis de proteção, como a Lei Berenice Piana, dando direito a vagas exclusivas, carteira de identificação (CIPTEA) e benefícios.

Abrir portas na escola e no trabalho: Obriga as instituições a fornecerem adaptações na rotina, como tempo extra em provas, redução de jornada e o acompanhamento daquela pessoa especial de suporte (o mediador) na sala de aula.

Liberar tratamentos de saúde: É o código exigido pelo SUS e pelos planos de saúde para autorizar as terapias, psicólogos e fonoaudiólogos que vão ajudar a pessoa a lidar melhor com o cotidiano. Atualmente, o código principal do autismo na versão mais nova da Organização Mundial da Saúde (CID-11) é o 6A02.



E qual é a diferença entre o CID10 F84.0 e o CID11 6A02?




CID-10: F84.0 – Uma caixinha isolada e rígida

Na classificação antiga (CID-10), o autismo ficava dentro de um grupo chamado "Transtornos Globais do Desenvolvimento" (TGD). Nesse sistema, os diagnósticos eram divididos em caixas separadas.

Na prática, um termo técnico e mal definido para descrever crianças que tinham deficiência intelectual grave (QI abaixo de 50), hiperatividade extrema (hipercinesia) que não respondia bem a remédios comuns, e comportamentos repetitivos (como balançar as mãos ou o corpo).

Esse código criava uma barreira. Ele focava tanto na mistura de sintomas que muitas vezes afastava a pessoa de um diagnóstico claro de autismo, dificultando o acesso a tratamentos comportamentais adequados.


CID-11: 6A02 – O olhar humanizado do Espectro

A versão mais recente da Organização Mundial da Saúde (CID-11) eliminou todas as caixas isoladas (como o F84.4 e a antiga Síndrome de Asperger). Agora, tudo está unificado sob o código 6A02.

Na prática, o foco mudou para a individualidade da pessoa. Em vez de criar um nome de doença para cada combinação de sintomas, o médico usa o código 6A02 e apenas acrescenta extensões para detalhar o que o paciente precisa.

Como aquela antiga condição (F84.4) é vista hoje: Uma pessoa que antes recebia o código F84.4 hoje é acolhida diretamente no espectro autista. Ela receberá o código 6A02, acompanhado da especificação de que possui deficiência intelectual e prejuízos associados na linguagem ou na coordenação motora (por exemplo, os códigos 6A02.3 ou 6A02.5).


O CID-10 dividia e rotulava os sintomas de forma fragmentada (F84.4). O CID-11 entende que o autismo é único para cada indivíduo (6A02) e mede as reais necessidades de suporte e comunicação que aquela pessoa precisa para viver bem na escola, na família e na sociedade.




Como vimos na história em quadrinhos da Camila Batista, o processo de aceitação é profundamente humano e cheio de altos e baixos, e o Yuri passou a vida inteira se sentindo um "Esquisito", triste e confuso, até, em sua adolescência, encontrar a sua amiga Celina, que teve a sensibilidade de olhar para as suas necessidades, respeita-las e orientá-lo a buscar por atendimento médico especializado. A própria designer deste Hq, é mãe de três e também descobriu-se autista, com um diagnóstico tardio, aos seus 44 anos. Nunca é tarde para buscar uma avaliação. 


Mais do que uma HQ, "Sou autista! E agora?" nos lembra que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com sentimentos, desafios, sonhos e uma forma única de enxergar o mundo. A jornada de Yuri mostra o quanto o acolhimento, a informação e o respeito podem fazer diferença na vida de alguém. É uma leitura que convida à reflexão e ajuda a compreender melhor as vivências de quem faz parte do espectro autista.

Em tempos em que ainda existe muito preconceito e desinformação, histórias como essa nos ensinam algo simples, mas essencial: ouvir, compreender e respeitar as diferenças.

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