Livro raro de Raul Seixas: a história de "O Metamorfônico" e a memória da poesia marginal

O Metamorfônico

Julho chegou e, com ele, um dos períodos mais especiais para os apaixonados por guitarras, contracultura e rock'n'roll. No dia 13 de julho, celebramos o Dia Mundial do Rock, uma data que homenageia não apenas um gênero musical, mas um movimento que transformou gerações.

Para os fãs de Raul Seixas, porém, as comemorações começam antes. No dia 28 de junho, lembramos o nascimento daquele que se tornou o maior nome do rock brasileiro e um dos artistas mais revolucionários da música nacional.

Segurando um dos livros mais raros sobre Raul Seixas: "O Metamorfônico", escrito por Isaac Soares de Souza
e publicado em 1995. Um verdadeiro tesouro para colecionadores e fãs do Pai do Rock Brasileiro.

Foi justamente nessa conexão entre o aniversário de Raul Seixas e o mês do rock que decidi abrir a minha estante para compartilhar uma das maiores relíquias da minha coleção: o raríssimo livro "Raul Seixas: O Metamorfônico", escrito por Isaac Soares de Souza e publicado em 1995 pela Gráfica e Editora Colleta.

Encontrar uma biografia como essa é o sonho de qualquer colecionador. Mas o valor deste exemplar vai muito além da sua raridade. Cada página guarda não apenas a genialidade de Raul Seixas, mas também uma história de amizade, respeito e preservação da memória da arte independente.

Mais do que apresentar uma obra praticamente impossível de encontrar hoje, quero contar como ela chegou às minhas mãos.


Capa do livro "Raul Seixas: O Metamorfônico", escrito por Isaac Soares de Souza e publicado em 1995
pela Gráfica e Editora Colleta. Considerado uma das obras mais raras sobre Raul Seixas.

Um livro raro que carrega uma grande amizade

Este exemplar pertenceu a um grande amigo, um artista que viveu e respirou cultura durante toda a sua vida.

Ele escrevia livros, produzia poesia marginal, organizava saraus, apresentava programas de rádio, gravava vídeos e acreditava profundamente na força da literatura independente. Também mantinha sua própria gráfica, ajudando novos escritores a publicarem seus trabalhos quando as portas das grandes editoras permaneciam fechadas. Minha irmã participou de algumas dessas publicações.


Leia também: Resenha do livro da minha irmã: uma obra que celebra a literatura, a criatividade e a força das histórias que merecem ser compartilhadas.


Sua poesia era intensa, verdadeira e inquieta. Assim como Raul Seixas, ele enxergava a arte como ferramenta de liberdade. Viveu fiel aos seus princípios e deixou uma legião de leitores, amigos e admiradores.

Tenho outros livros escritos por ele em minha coleção. Sempre que volto às suas páginas, reencontro sua essência. Receber justamente este livro foi um gesto de enorme confiança. 

Hoje, minha missão é preservar essa obra com o mesmo carinho e respeito com que ela chegou até mim.

Capas dos livros "33 R.P.M. – Relicário de Poesia Marginal" e "33 R.P.M. Vol. 2", publicados pela Editora Barata Artesanal,
de Barata Cichetto, referência na literatura e na poesia marginal brasileira


Quem é Isaac Soares de Souza?

Para compreender a importância desta obra, também é preciso conhecer quem a escreveu.

Isaac Soares de Souza é um dos mais importantes pesquisadores e biógrafos dedicados à obra de Raul Seixas. Jornalista e escritor, tornou-se referência entre estudiosos e colecionadores ao produzir uma extensa bibliografia sobre o cantor.

"Raul Seixas: O Metamorfônico", lançado em 1995, foi seu primeiro livro dedicado ao artista.

Anos depois, o próprio Isaac comentou sobre essa obra em uma publicação nas redes sociais:

"Esta é a capa de meu primeiro livro sobre Raul Seixas, lançado em 1995. Raríssimo. Depois deste livro já publiquei mais cinco biografias de Raul Seixas, duas biografias de Zé Ramalho e uma biografia de Bob Dylan."

Além dessas obras, o autor também publicou "Cantando um Blues", livro que percorre toda a história do blues, desde suas origens até sua influência sobre diversos estilos musicais, incluindo a forte relação que Raul Seixas sempre manteve com o gênero.

Sua produção bibliográfica demonstra um trabalho consistente de pesquisa e preservação da memória da música brasileira.


O significado de "O Metamorfônico"

Publicado apenas seis anos após a morte de Raul Seixas, O Metamorfônico mergulha no pensamento filosófico, místico, anarquista e contracultural presente nas letras e na trajetória do cantor.

O próprio título da obra revela sua proposta.

Isaac criou o neologismo "Metamorfônico", unindo a ideia da clássica "Metamorfose Ambulante" ao universo sonoro da música de Raul Seixas.

O resultado é um conceito que sintetiza perfeitamente a constante transformação artística, filosófica e musical que sempre marcou o "Maluco Beleza".

Edição original de Raul Seixas: O Metamorfônico, publicada em 1995 pela Gráfica e Editora Colleta. O livro raro de Isaac Soares de Souza é uma das obras mais procuradas por colecionadores e fãs de Raul Seixas. Quarta capa.


Por que este livro é tão raro?

Ao contrário das biografias lançadas por grandes editoras, O Metamorfônico teve circulação bastante limitada.

Publicado por uma editora independente, o livro nunca chegou às grandes redes de livrarias. O próprio autor o definiu anos depois como uma obra "raríssima", reforçando a dificuldade de encontrar exemplares atualmente.

Hoje, quando surge algum volume em sebos especializados, grupos de colecionadores ou marketplaces, rapidamente desperta o interesse dos fãs de Raul Seixas.

Mais do que um livro, trata-se de um importante documento sobre a história do rock brasileiro.

Página do exemplar raro de "O Metamorfônico", primeira biografia de Raul Seixas escrita por Isaac Soares de Souza, hoje muito procurada por colecionadores


Muito além de uma biografia

O valor deste exemplar não está apenas na raridade. Ele representa uma amizade. Representa um presente confiado a alguém que saberia cuidar dele. Representa a dedicação de escritores independentes que fizeram da literatura um ato de resistência. Representa todos aqueles artistas que nunca deixaram de acreditar na força da palavra. 

Inspirado por Franz Kafka e apaixonado por Raul Seixas, Barata Cichetto transformou a poesia marginal e a literatura independente em sua própria forma de resistência.

Quando olho para este livro, não vejo apenas uma biografia sobre Raul Seixas. Vejo também a lembrança de um amigo que dedicou sua vida à cultura, à poesia e à valorização de novos autores. E essa talvez seja a maior riqueza que um livro pode carregar.

"Há em Raul, o que também existe dentro de mim:

O desejo das feras e a bela morte vestida de cetim.

Uma coisa intensa, metamorfose, desespero e solidão.

E eu tenho medo das sombras, mas não da escuridão." 

Barata Cichetto, em "Uma cachaça para Raul Seixas"

A intensidade de Barata Cichetto cantada em versos para Raul Seixas.
Uma prova de que a literatura marginal não teme as sombras da escuridão


A literatura independente também faz história

Vivemos em uma época em que quase tudo se tornou digital. Mesmo assim, livros independentes continuam possuindo uma alma difícil de explicar. São obras produzidas por pessoas movidas pela paixão, não pelo mercado.

Guardam histórias que muitas vezes jamais seriam publicadas por grandes editoras. Foi exatamente isso que uniu Raul Seixas, Isaac Soares de Souza e meu querido amigo poeta. Cada um, à sua maneira, acreditava que a arte deveria ser livre, inquieta e transformadora.

Hoje, este livro ocupa um lugar especial na minha estante porque representa muito mais do que uma obra rara. Ele simboliza amizade, memória, resistência cultural e a importância de preservar artistas independentes para que suas histórias nunca desapareçam.

Enquanto existirem leitores, colecionadores e apaixonados pela arte, essas memórias continuarão vivas. Porque uma fita cassete antiga, um livro cuidadosamente preservado ou um texto compartilhado na internet também são formas de eternizar quem dedicou a vida à criação.

Viva a Sociedade Alternativa.

Viva a poesia marginal.

E toca Raul, hoje e sempre!









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