De "Primeiro as Damas" da Netflix ao Caso real da Virgínia: O Respeito à Mulher é Real ou por Conveniência? - Keep N Pop

quinta-feira, 4 de junho de 2026

De "Primeiro as Damas" da Netflix ao Caso real da Virgínia: O Respeito à Mulher é Real ou por Conveniência?

Alôôôôôô, Virgínia! 
Vamos dar palco pras causas feministas?

Virginia Fonseca mudou sua forma de atuação, mas ainda mantém um vínculo parcial com o setor, focando em apostas esportivas. Embora tenha deixado de divulgar jogos no estilo cassino (como o "Fortune Tiger/Tigrinho"), relatórios de meados de 2025 e investigações que repercutiram em 2026 mostram que ela seguiu promovendo palpites esportivos em plataformas de apostas.


Não sou fã e nem seguidora de uma das maiores, se não a maior, das influenciadoras do Brasil. Mas sou obrigada a concordar: de modos bem polêmicos, ela conseguiu se tornar gigante, mantendo seu legado e diversas marcas de pé. Repito: não gosto e não acompanho. Mas por que estou perdendo o meu tempo falando dela? Simplesmente porque ela é assunto por onde vai.

Em um dia, está envolvida em CPI de casas de apostas; no outro, sua marca de cosméticos, a WePink, é exposta nas mídias sociais por problemas de vigilância sanitária em um centro de distribuição mofado. Depois, vai a Madrid e vira alvo de boatos de suposta traição envolvendo o jogador Vini Jr. Agora, com a Copa do Mundo de 2026 batendo à porta, surgem boatos de que ela será uma das comunicadoras do evento diretamente dos EUA pelo Domingão com Huck (outro que não sou fã e um dia ganha uma pauta só dele).

E o acontecimento mais recente? Violência, xingamentos, constrangimento e muito machismo em pleno
Maracanã

Imagem: Wikipédia

O Maracanã é apenas o maior estádio do Brasil. Fundado em 1950, o local tem capacidade para quase 80 mil pessoas e já foi palco de shows históricos de ícones pop como Madonna e Beyoncé. Localizado no Rio de Janeiro, é um dos maiores cartões-postais do país e foi o cenário escolhido para o jogo do amistoso da seleção brasileira contra o Panamá, antes do início da Copa 2026.

Seleção Brasileira realizou amistoso no Maracanã antes de viagem aos EUA • Divulgação/CBF

Na partida, que contava com estrelas como Endrick, Vini Jr. e ( Neymar e ninguém sabe se vai aguentar ficar de pé na Copa 2026), tivemos que assistir a uma cena constrangedora: uma influenciadora parecia ter mais visibilidade que os astros do espetáculo. Faz sentido? Um bando de machos acompanhando a seleção no amistoso e, após o gol de Vini Jr, a torcida resolve perder tempo destilando ódio contra a mulher na arquibancada. Alguns dizem que foi por conta do suposto racismo da história de um beijo em um macaco, já outros, concordam que seja pelo machismo e o ambiente tóxico, que é o campo de futebol. 


''NEYMAR VAI PARA A COPA ATÉ SE NÃO PUDER JOGAR': LINHA DE PASSE COMENTA SOBRE CAMISA 10 DO BRASIL"



O evento já começou como uma tragédia cômica. Talvez os xingamentos tenham sido uma cortina de fumaça para a abertura horrorosa com Alcione e Belo cantando o hino nacional, quem não viu, veja, ou simplesmente aceite que o fiasco foi coletivo, incluindo a orquestra. 


Não é à toa que, desde o anúncio dos convocados, o brasileiro tem preferido focar no que é produtivo: a criatividade das pessoas decorando as ruas para a Copa está de parabéns. É muito melhor do que o álbum de figurinhas e a própria Seleção. Ninguém tem muita esperança nesse time; se não fossem os grandes patrocinadores e os fãs alienados que idolatram idiotas, ninguém sentiria falta de certas estrelas. Talvez a torcida devesse cobrar gols da Virgínia também!

Caio Bergantine, Grasipicollishop e caiohenriquefoto

A realidade nua e crua, dentro e fora dos estádios, é indigesta. Assistindo aos programas de fofoca com a minha irmã, vimos jornalistas e internautas concordando que o ataque foi desnecessário. O desgaste que esses torcedores têm para humilhar uma mulher em público é o oposto da apatia que demonstram quando cruzam os braços para apoiar jogadores e membros de suas equipes,  acusados de crimes graves,  como a violência sexual, ou de tirar a vida da mãe de seus filhos. Quando esses mesmos jogadores entram em campo, porque a lei permite que continuem servindo de ídolos, ricos e famosos, e são aplaudidos de pé e ainda tem quem mata e morre por eles.


O próprio Vini Jr. chegou a defender a ex-namorada, enquanto a torcida, em vez de celebrar o gol de um dos nossos maiores atletas internacionais (que já sofre tanto racismo e nunca foi defendido por Virginia), optou em dar um espetáculo de misoginia ao vivo, para os mais de 80 mil telespectadores, durante a partida no Maracanã. 

A "Desinfluenciadora" e o Despertar por Conveniência

Imagem: Reprodução/Instagram

Após o incidente, a Virgínia postou, pela primeira vez na carreira, um story sobre o impacto da violência contra a mulher. Imediatamente, as redes acenderam. A crítica é justa: a fala soa problemática porque ela nunca levantou uma bandeira feminista, nunca apoiou vítimas de violência doméstica e jamais combateu machistas, misóginos ou redpills... e nem o racismo quando falaram de seu ex. Talvez,  para ela, a pauta só é válida quando o calo aperta no próprio pé. No meu post arterior, expliquei sobre algumas formas de violência, incluindo a psicológica, mas posso escrever um novo texto explicando cada uma delas e suas diferenças, no âmbito criminal, sobre a lei da Maria da Penha, a injúria, a difamação, a importunação e a misoginia, com mais detalhes em um próximo post. 


 A dor da Maria da Penha, da Marielle ou da Erika não importam; o que importa é a Virgínia
(contém sarcasmo)

O goleiro Bruno foi condenado pelo homicídio de Eliza Samudio, ocorrido em 2010.
Foto: Reprodução/Instagram/Dedeesmeraldasfc/otempo

Após sua prisão, o ex-goleiro, tentou retomar a sua carreira, mas devido a enorme pressão pública e de patrocinadores, ele perdeu alguns contratos, mas mesmo assim jogou em times amadores, de várzea e de ligas regionais, como o Orion FC em São Paulo e o Menezes Esporte Clube em Minas Gerais, e sempre com muitos fãs que o acompanha até hoje. Em fevereiro de 2026, ele viajou para o Acre para defender o Vasco-AC sem autorização da justiça e como não retornou ao regime semiaberto, passou a ser considerado foragido e preso novamente em maio de 2026. Além das acusações pela morte da mãe de seu filho, ele também está envolvido em polêmicas envolvendo o mistério do local onde está o corpo de Eliza Samudio e de questões relacionadas ao pagamento de pensão que deve ao filho Bruno Samudio (filho de Eliza, e atualmente é jogador do time sub-17 do Botafogo).  

A "desinfluenciadora" prestou dois papéis: primeiro na CPI das bets, mostrando como o dinheiro e a ganância de algumas pessoas está acima de valores; agora, mostrando como uma imagem construída à base de muita base e futilidade é forte o suficiente para mover o ódio do maior estádio do país. E não toquem nos craques, mesmo aqueles que são criminosos! Esse é o dilema da galera seletiva.


O Espelho da Ficção: "Primeiro as Damas"

Imagem: Reprodução/Netflix

O que veio bem a calhar foi chegar em casa naquela noite, depois de debater esse assunto com a minha irmã, e me deparar com o filme "Primeiro as Damas" no catálogo da Netflix. Curiosamente, ele dialoga e tem muitas semelhanças com "Eu Não Sou um Homem Fácil" de 2018. Ao assistir, tive a sensação de estar vivendo um verdadeiro déjà vu.

Imagem: Reprodução/Netflix

O longa conta a história de Damien, o típico "macho alfa": dominador, arrogante e prepotente, que trata as mulheres como subalternas. Até que ele sofre uma queda na rua, bate a cabeça e acorda em uma realidade paralela onde as mulheres dominam tudo. E quando digo dominam, significa que elas têm a liberdade de fazer piadinhas indiscretas sobre o gênero oposto, de assediar, de dizer que ele está "emocionado ou descontrolado demais" para assumir cargos de destaque. Sabe... tudo o que os homens fazem normalmente na nossa realidade. 

Imagem: Reprodução/Netflix

O trunfo do filme é que o protagonista tem total consciência do mundo real, e sua jornada vira uma autorreflexão sobre o quão idiota ele sempre foi. O filme é um bom passatempo para uma tarde entediante (ou para assistir enquanto arruma a casa, como eu fiz), mas escancara cenas ridículas e constrangedoras que mostram como o comportamento masculino patriarcal é horroroso.

Imagem: Reprodução/Netflix


Até o personagem do filme se toca e muda. Já a torcida do Maracanã...

Imagem: Reprodução/X - Pra sempre Twitter

No fim das contas, Virgínia merece a insignificância de sua imagem fútil e sem representatividade real. Mas o debate gerado pelo episódio vai muito além dela. No antigo Twitter (atual X), que muitos chamam de Torre de Babel de Elon Musk, mas que a tradução automática transformou em uma praça pública global, vi mulheres das Américas, África, Ásia e pelo mundo todo conversando civilizadamente sobre suas dores. É impressionante como o endereço muda, mas a experiência de ser mulher sob o patriarcado é exatamente a mesma. O sistema tenta amedrontar, mas as mulheres sempre serão resistência. Que usem o engajamento da Virgínia para o que realmente importa, mesmo que ela mesma não saiba como fazer isso.

Imagem: Reprodução/X - Pra sempre Twitter

Essa discussão global dialoga diretamente com produções como 'Primeiro as Damas' e o francês 'Eu Não Sou um Homem Fácil', que tentam expor a urgência de superarmos as violências de gênero por meio da inversão de papéis. Contudo, ambos os filmes falham na execução e entregam obras ruins, que não fazem jus à complexidade do tema. Enquanto o cinema falha em traduzir essa realidade de forma artística e profunda, o Maracanã serviu de palco real para nos lembrar que a humilhação pública e a misoginia permanecem como ferramentas de controle social. Superar esse modelo patriarcal e reconhecer a gravidade de tais episódios, sem minimizá-los ou focar no mérito da figura atacada, é o único caminho para que o respeito às mulheres deixe de ser uma tentativa satírica mal executada e se transforme em um direito definitivo.


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