O documentário da Disney Plus transforma uma descoberta familiar em uma narrativa centrada na figura de Sophia Maddox, levantando discussões sobre ética, psicologia criminal e a romantização dos serial killers
Quando descobri que a Disney havia lançado Meu Avô, Charles Manson, imaginei que assistiria a um documentário capaz de aprofundar um dos casos mais emblemáticos da criminologia moderna. A proposta parecia promissora: acompanhar a história de uma mulher que descobre ser neta de Charles Manson, compreender como essa revelação impactou sua família e refletir sobre os efeitos psicológicos de carregar um sobrenome associado a um dos criminosos mais conhecidos do século XX.
Como alguém que acompanha true crime e tem grande interesse por psicologia comportamental, iniciei o documentário com expectativas bastante altas. Infelizmente, elas foram frustradas logo nos primeiros minutos.
O que poderia ter sido uma investigação séria sobre identidade, herança familiar e comportamento criminoso acaba se transformando em uma narrativa excessivamente centrada na própria diretora, Sophia Maddox. Em vez de explorar a complexidade do caso e o impacto que a descoberta teve sobre todos os envolvidos, o documentário dedica boa parte do tempo à construção de uma imagem pessoal que, na minha percepção, muitas vezes se sobrepõe aos fatos.
Como Sophia Maddox descobriu ser neta de Charles Manson
A história começa com Sophia conversando com seu pai, Daniel Argüelles, que revela já saber, havia muitos anos, que não era filho biológico do homem que o criou. Sua mãe jamais revelou quem era seu verdadeiro pai e essa lacuna sempre acompanhou sua história.
Foi apenas em 2022 que a família decidiu recorrer a um exame de DNA para esclarecer definitivamente essa dúvida.
O resultado confirmou que Daniel Argüelles era filho biológico de Charles Manson. A partir dessa comprovação científica, Sophia descobriu oficialmente ser neta do líder da seita responsável por um dos crimes mais chocantes da história norte-americana.
A revelação, por si só, já possuía força suficiente para sustentar um excelente documentário. Afinal, poucas pessoas precisam lidar com o peso psicológico de descobrir um vínculo familiar tão delicado e cercado de repercussões históricas.
No entanto, a forma como essa descoberta é conduzida ao longo da produção acabou chamando mais minha atenção do que a própria revelação.
Pouco tempo depois da confirmação do DNA, Sophia decidiu alterar legalmente seu sobrenome. Em vez de manter Argüelles, herdado do pai, adotou Maddox, sobrenome de sua bisavó paterna, Kathleen Maddox, mãe de Charles Manson.
Segundo a própria diretora, a mudança representava uma homenagem à bisavó. Entretanto, dentro da narrativa construída pelo documentário, essa escolha acaba reforçando ainda mais sua ligação pública com a família biológica de Manson, transformando essa herança em um dos pilares centrais de sua identidade e da divulgação da obra.
Quando a investigação dá lugar ao protagonismo
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| O excesso desse tipo de material faz com que a obra se aproxime mais de um relato autobiográfico e pela autopromoção. |
É justamente nesse momento que, para mim, o documentário começa a perder força.
Em vez de aprofundar questões relevantes sobre psicologia criminal, dinâmica familiar ou mesmo os impactos emocionais dessa descoberta, a narrativa passa a girar quase exclusivamente em torno da própria Sophia.
Ao longo de toda a produção, fica evidente seu desejo de compreender Charles Manson. Até aí, isso seria perfeitamente compreensível. O problema é que essa curiosidade parece evoluir para algo maior: uma insistência constante em estabelecer paralelos entre ela e o avô.
O recurso visual utilizado diversas vezes, sobrepondo metade do rosto de Sophia ao rosto de Manson, ilustra bem essa proposta. A sensação transmitida é a de uma tentativa permanente de convencer o espectador de que existe uma ligação muito mais profunda entre os dois do que apenas o vínculo biológico.
A Obsessão e a Construção de uma Narrativa Narcísica
Essa construção narrativa acaba ofuscando aquilo que poderia ser o aspecto mais interessante da história: como uma família comum enfrenta a descoberta de carregar um parentesco tão pesado.
Em diversos momentos, tive a impressão de que o documentário deixava de investigar Charles Manson para investigar Sophia Maddox.
E essa diferença muda completamente a experiência de quem esperava assistir a uma produção voltada para criminologia e comportamento humano.
A reação de Sophia ao resultado do teste diz mais sobre a narrativa construída pelo documentário do que sobre qualquer evidência científica de uma semelhança entre ela e Charles Manson
Essa necessidade de estabelecer paralelos entre ela e o avô aparece diversas vezes ao longo do documentário. Um dos momentos mais reveladores é quando Sophia demonstra surpresa (e satisfação?) ao descobrir que alguns dos resultados de seus testes psicológicos e de personalidade apresentavam semelhanças com os de Charles Manson. Em vez de tratar essa coincidência com cautela ou contextualizar as limitações desse tipo de comparação, a cena é conduzida como se essa aproximação tivesse um significado especial, reforçando a narrativa de que existiria uma conexão comportamental entre os dois para além do vínculo biológico.
No entanto, é importante lembrar que testes psicológicos, isoladamente, não determinam personalidade, muito menos permitem concluir que duas pessoas compartilham características profundas apenas porque obtiveram resultados semelhantes em determinados aspectos. Quando apresentados sem o devido contexto científico, esse tipo de recurso pode levar o espectador a interpretações equivocadas e fortalecer justamente a ideia que o documentário parece querer construir: a de que Sophia estaria, de alguma forma, destinada a compartilhar traços do avô.
Daniel Argüelles: o personagem mais interessante acaba ficando em segundo plano
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| Charles Manson e Daniel Arguelles. Apesar da diferença na cor de olhos, o olhar de pai e filho revela uma semelhança impressionante. |
Se existe alguém cuja história realmente desperta interesse, esse alguém é Daniel Argüelles.
Filho biológico de Charles Manson, Daniel passou décadas sem conhecer sua verdadeira origem. Ao contrário da filha, sua postura durante todo o documentário transmite desconforto, cautela e até certo sofrimento ao revisitar essa história.
É possível perceber que falar sobre Charles Manson nunca parece ser algo confortável para ele.
Enquanto Sophia demonstra curiosidade constante em compreender e explorar esse parentesco, Daniel aparenta justamente o contrário: alguém que passou boa parte da vida tentando manter distância desse legado.
Essa diferença de comportamento é, na minha opinião, um dos aspectos mais interessantes de todo o documentário, e também um dos menos explorados.
O rompimento entre pai e filha levanta questões éticas
Outro ponto que me chamou atenção foi a relação entre Sophia e seu pai, Daniel Argüelles.
Durante o documentário, já é possível perceber o desconforto de Daniel ao revisitar sua história e ao lidar com as constantes comparações feitas pela filha entre ela e Charles Manson. Em nenhum momento ele parece demonstrar entusiasmo com a descoberta ou desejo de transformar esse vínculo familiar em uma narrativa pública.
Depois da conclusão das filmagens, esse distanciamento deixou de ser apenas uma impressão do espectador e tornou-se público.
Em entrevistas concedidas para divulgar o documentário, Sophia revelou que os dois deixaram de se falar após desentendimentos ocorridos durante a produção. Segundo ela, Daniel chegou a bloquear seu número de telefone. Ainda assim, afirmou que "a porta continua aberta" e disse esperar que o pai assista ao documentário para "se sentir acolhido".
Foi justamente aí que minha percepção sobre a obra mudou de vez.
Se a produção terminou contribuindo para o rompimento entre pai e filha, é inevitável questionar se toda essa exposição realmente respeitou os limites emocionais de alguém que estava tentando se desvincular da figura de Charles Manson.
Independentemente das intenções de Sophia, o resultado transmite a impressão de que a construção da narrativa documental acabou se sobrepondo ao bem-estar das pessoas diretamente envolvidas.
Como espectadora, achei contraditório ouvir que o objetivo seria acolher o pai enquanto, ao mesmo tempo, o documentário expõe justamente os momentos em que ele demonstra maior vulnerabilidade.
Daniel sempre me pareceu muito mais interessado em compreender sua história do que em transformá-la em espetáculo. Sophia, por outro lado, parece seguir o caminho oposto. Ele é seu pai, quem te criou, com todo amor e carinho. E no final, você escolhe o legado de um assassino, que também te abandonaria, ou coisa pior.
Essa diferença de postura acaba se tornando um dos elementos mais marcantes de toda a produção.
Quando a busca por identidade se transforma em espetáculo
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| Vídeos de infância, apresentações de balé, treinos de boxe e inúmeros closes, o documentário dedica grande parte do tempo à construção da imagem de Sophia Maddox. |
Ao longo do documentário, tive a sensação de que a história deixou de ser sobre Charles Manson e passou a ser sobre a necessidade de Sophia de encontrar algum significado pessoal naquele parentesco.
Naturalmente, descobrir um vínculo familiar com um dos criminosos mais conhecidos da história é algo que mudaria a vida de qualquer pessoa. A curiosidade é compreensível.
O problema, na minha opinião, surge quando essa busca deixa de ser uma tentativa legítima de compreender as próprias origens e passa a ocupar praticamente todo o espaço narrativo.
Em vários momentos, Sophia parece empenhada em encontrar semelhanças entre ela e o avô. Não apenas na história da família, mas em características pessoais, talentos, comportamentos e até na aparência física.
Os recursos visuais reforçam constantemente essa ideia, principalmente quando o documentário utiliza montagens unindo metade do rosto de Sophia ao de Charles Manson.
Esse tipo de construção transmite a sensação de que existe um esforço deliberado para convencer o espectador de que há uma conexão muito maior do que o simples parentesco biológico.
Para mim, esse é um dos maiores problemas do documentário.
A verdadeira história, a descoberta de Daniel, os impactos psicológicos dessa revelação e a reconstrução de uma identidade familiar, já era suficientemente interessante. Não havia necessidade de criar uma narrativa quase simbólica em torno da figura de Sophia.
O verdadeiro problema não é o parentesco, mas a forma como ele é apresentado
Em nenhum momento considero problemático alguém investigar a própria origem ou tentar compreender sua história familiar.
O que me incomodou foi perceber que essa descoberta parece, aos poucos, ser transformada em elemento central de uma identidade construída publicamente.
A mudança legal do sobrenome para Maddox, em homenagem à bisavó paterna Kathleen Maddox, é apresentada como um gesto afetivo. No entanto, dentro do contexto do documentário, essa decisão acaba reforçando ainda mais a associação da diretora com a família de Charles Manson.
Somada às comparações frequentes, às montagens visuais e ao foco constante na figura do avô, a impressão que fica é a de que essa herança deixa de ser apenas um fato biográfico e passa a funcionar como um dos principais pilares da narrativa.
É justamente por isso que considero a obra um desperdício de potencial.
O documentário tinha todos os elementos para discutir identidade, trauma geracional, genética, ambiente familiar, psicologia criminal e os efeitos de descobrir uma verdade escondida durante décadas.
Em vez disso, opta por construir uma história que, em muitos momentos, parece muito mais interessada em provocar impacto emocional do que em aprofundar o tema que propõe discutir.
O verdadeiro Charles Manson não era o centro da história
No fim das contas, a sensação que tive foi curiosa.
Embora Charles Manson esteja presente o tempo todo, o documentário raramente se dedica a compreendê-lo sob a ótica da criminologia, da psicologia ou da investigação histórica.
Ele acaba funcionando quase como um pano de fundo para outra narrativa: a construção da identidade pública de sua neta.
Para quem procura um documentário sobre Charles Manson, a experiência provavelmente será frustrante.
Para quem espera um estudo sobre psicologia criminal, também.
E foi justamente essa expectativa não correspondida que me levou à reflexão mais importante de todo o filme: a forma como o true crime vem sendo produzido e consumido atualmente.
"Foi justamente assistindo a produções tão diferentes que percebi como o problema não está no true crime em si, mas na forma como algumas histórias são contadas."
O Contraste Necessário: por que...
Elize: Sombras de uma Mulher consegue ir além do sensacionalismo
Dirigida por Raphael Montes e protagonizada por Lorena Comparato, a série reconstrói com riqueza de detalhes a trajetória de Elize e Marcos Matsunaga, desde o início do relacionamento até o crime que chocou o Brasil e continua sendo debatido anos depois.
O grande mérito da produção está justamente em não reduzir seus personagens a estereótipos.
Marcos Matsunaga pertencia a uma das famílias empresariais mais tradicionais de origem japonesa do país. Apesar da posição privilegiada, vivia sob forte influência das expectativas familiares e da dependência financeira relacionada ao patrimônio da família, escondendo uma identidade regada de vícios, fetiches e prostitutas.
Elize, por outro lado, cresceu em um ambiente completamente diferente. Sua infância foi marcada pela rejeição familiar, pela convivência com um padrasto acusado de abusos, vida adulta na prostituição e por uma realidade distante daquela encontrada quando passou a fazer parte da família Matsunaga.
São duas trajetórias profundamente distintas que acabam se encontrando em um relacionamento marcado por conflitos, desequilíbrios emocionais, disputas de poder, infidelidade, ressentimentos e escolhas destrutivas.
É justamente essa construção dos personagens que diferencia a série. Ela permite compreender como diferentes fatores contribuíram para a deterioração daquele casamento sem transformar nenhum dos envolvidos em herói ou vilão absoluto.
Compreender o contexto nunca pode ser confundido com justificar um crime.
Esse talvez seja um dos maiores desafios das produções de true crime: explicar sem absolver e contextualizar sem romantizar
Infelizmente, parte do público parece ignorar essa diferença.
Desde o julgamento, Elize Matsunaga passou a ser vista por algumas pessoas quase como uma figura de resistência feminina. Nas redes sociais, não faltam comentários defendendo suas atitudes sob o argumento de que teria eliminado um marido tóxico, manipulador e infiel.
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| Lorena Comparato e o ator Henrique Kimura, que interpreta Marcos Matsunaga em Elize: Sombras de uma Mulher (Netflix, 2026). |
A própria série demonstra que aquela relação era muito mais complexa do que isso.
Nenhum dos dois personagens pode ser compreendido por meio de explicações fáceis. Ambos carregavam histórias difíceis, traumas, fragilidades e comportamentos autodestrutivos. É justamente essa complexidade que torna a produção tão interessante.
Outro aspecto importante é que Elize cumpriu a pena imposta pela Justiça e hoje vive longe dos holofotes. Ela não tem obrigação de responder às inúmeras especulações que ainda cercam o caso nem de satisfazer a curiosidade pública sobre os acontecimentos daquele dia.
Enquanto isso, quem continua pagando o preço mais alto dessa tragédia é alguém que raramente aparece nas discussões.
A filha do casal. Que, diferentemente de Sophia Maddox; a filha de Elize e Marcos Matsunaga permanece completamente anônima. Sob a guarda dos avós paternos, ela cresceu longe dos holofotes, preservada da exposição midiática e das inúmeras polêmicas que cercam um dos crimes de maior repercussão da história do Brasil. Seu direito à privacidade foi priorizado, permitindo que sua história fosse protegida, e não transformada em espetáculo.
A Responsabilidade no True Crime e o Fascínio pelo Mal
ATÉ ONDE ISSO PODE SER CONSIDERADO SAUDÁVEL?
Enquanto espectadora, meu foco recai inteiramente sobre a análise comportamental. Não busco empatizar com o criminoso, mas compreender seu histórico, traumas e gatilhos. Viver sob a adrenalina do perigo ou flertar com monstros sagrados da criminalidade deveria acender um sinal de alerta. Afinal, quem é você de verdade quando se desfaz do personagem que consome?
Tem muita gente que adora viver um personagem de bom moço e demonizar os outros, enquanto a sua verdadeira face é abominada pelo próprio diabo... No fundo, essa necessidade de demonizar o próximo é apenas uma tentativa frustrada de desviar a atenção da própria maldade. A inteligência pode até faltar na hora de sustentar a farsa, mas a falta de caráter é sempre o que salta aos olhos.
O documentário de Sophia e Alexandra resumiu-se a uma grande ilusão egocêntrica: a tentativa forçada de colar uma identidade perigosa a uma árvore genealógica comum, em flagrante desrespeito às vítimas. Espero que um dia Sophia possa se tratar com um bom profissional que a salve de suas próprias alucinações de estrelismo, pois sua obra carece totalmente de substância artística, sobrevivendo apenas às custas do nome do avô e da imagem de seu pai.
E você, assistiu algum desses filmes ou documentários de True Crime? Ou prefere os livros?
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