Em uma década, lares chefiados por mulheres saltaram para 49,1%; na mesma proporção, cresce busca por mecânica entre motoristas maduras
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Divulgação Vittória Gabriela |
“Houve um aumento na participação de mulheres maduras nas oficinas que promovemos. É um movimento que vai além da curiosidade por motores. Reflete uma mudança de papel. São viúvas que passaram a resolver sozinhas questões antes compartilhadas. Mães que se tornaram a principal referência financeira da família. Mulheres que chegaram aos 50 ou 60 anos acumulando experiências suficientes para perceber que depender de alguém para explicar um orçamento mecânico já não faz sentido”, destaca.
Em pouco mais de uma década, o número de lares sob responsabilidade feminina cresceu. Dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE em 2024, mostram que 49,1% dos lares brasileiros já têm mulheres como responsáveis. Em 2010, esse percentual era de 38,7%. Na prática, isso significa que cerca de 36 milhões de brasileiras estão à frente das decisões financeiras e administrativas de suas casas, um avanço que ajuda a explicar a busca crescente por autonomia em áreas antes tradicionalmente delegadas a terceiros, como a manutenção automotiva.
Essa mudança aparece em decisões que raramente ganham destaque nas estatísticas: escolher uma oficina, questionar uma troca de peça, entender uma revisão ou saber quando um orçamento faz sentido.
E se antes a maioria das participantes chegava motivada por experiências negativas, como panes, prejuízos ou atendimentos considerados inadequados, hoje elas buscam conhecimento de forma preventiva. “No início, muitas chegavam depois de um problema, um mau atendimento ou um prejuízo. Hoje, vemos cada vez mais mulheres buscando aprender por escolha, antes que qualquer situação aconteça. É uma mudança do ‘preciso me virar’ para o ‘quero ter controle’”, afirma.
Segundo Vittória, a maioria das mulheres chega sem qualquer conhecimento prévio sobre o carro, e isso não é uma barreira. “O workshop foi desenhado para quem está começando do zero. Não existe pergunta boba. A única pergunta ruim é a que a gente deixa de fazer por medo”, diz.
Vittória ressalta, ainda, que o aprendizado não transforma essas mulheres em mecânicas, mas muda a forma como elas ocupam esse espaço. “O conhecimento evita situações comuns: desde pagar por serviços desnecessários até ignorar sinais simples que podem se transformar em problemas maiores. E quase todo prejuízo alto começa com algo pequeno que foi ignorado por falta de informação”, explica.
Ela conclui: “Para quem quer começar, o caminho não precisa ser técnico: entender itens básicos, como nível de óleo, desgaste de pneus e funcionamento de revisões periódicas, já é um primeiro passo para transformar o carro de um ponto de dúvida em uma decisão consciente”.
Em tempo
A expansão da comunidade passa agora pela ampliação das capacitações. A proposta é aumentar o número de turmas de mecânica básica para mulheres e levar os encontros para novas regiões do país. Capitais como Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte já estão no radar da iniciativa.
Além disso, a comunidade trabalha no desenvolvimento de versões online dos cursos, com o objetivo de ampliar o acesso ao conteúdo e alcançar mulheres de diferentes estados, democratizando o conhecimento sobre mecânica básica e autonomia ao volante.
