Entre Rosas, Chaves e Ossos

 

Obra digitalizada e modificada a partir de uma arte feita à mão, apenas para ilustrar o post.
Reprodução: instagram @_nica.brv
O quadro original do meu retrato foi eternizado e emoldurado. O artista permanecerá em anonimato.



No silêncio, nos encontramos.

Nunca foi preciso dizer nomes.
Há presenças que não chegam,
porque sempre estiveram ali,
adormecidas nas raízes da alma,
esperando apenas o momento do despertar.

Nas noites em que a lua derrama sua luz sobre a terra,
entre velas, rosas e o perfume do invisível,
conversamos sobre aquilo que a razão ainda insiste em explicar,
mas que a alma sempre soube.

Você nunca respondeu por mim.

Apenas me ensinou
a escutar o eco da minha própria voz.

Quando me perdi,
não afastou os espinhos do caminho.
Entregou-me uma chave
e deixou que eu encontrasse
a saída do meu próprio labirinto.

Foi ali que compreendi
que nenhuma porta se abre antes da hora
e que algumas verdades
só florescem depois da escuridão.

Disseram que eu carregava a energia de uma bruxa.

Que eu era rebelde.

Que havia fogo
onde esperavam obediência.

Um dia também me chamaram de ruim.
De treteira.
Disseram que eu não abaixava a cabeça.

Naquele instante,
chorei.

Por um momento,
questionei minha própria essência.

Mas o tempo é um mestre silencioso.

Hoje compreendo
que toda mulher livre
assusta aqueles
que vivem confortáveis dentro das próprias correntes.

Nunca nasci para ser governada.

Não pertenço a religiões.
Não pertenço a rótulos.

Minha espiritualidade atravessa florestas,
encruzilhadas,
cemitérios,
templos
e o silêncio da madrugada.

Ela não pede permissão.
Ela apenas existe.

Respeito todos os caminhos.

Mas sigo apenas aquele
que minha consciência reconhece como verdadeiro.

Não abaixo a cabeça por medo.

Não aceito meias verdades
para conquistar aprovação.

Prefiro caminhar sozinha
do que abandonar quem sou
para caber no mundo de alguém.

A senhora da transformação
sempre caminhou ao meu lado.

Não como castigo.

Mas como lembrança
de que tudo aquilo que morre
abre espaço para uma nova vida.

Foi ela quem recolheu
os pedaços da mulher que fui.

Quem me ensinou
que renascer exige coragem.

Que flores também brotam
sobre a terra revolvida.

Fez dos meus ossos uma fortaleza.

Da minha dor,
sabedoria.

Dos meus espinhos,
proteção.

E quando a noite parecia eterna,
duas tochas iluminavam
a encruzilhada da minha alma.

Mostrando que até a escuridão
guarda caminhos
para quem não teme enxergar a própria sombra.

Aprendi que existem portas
que jamais devem ser abertas.

E outras
que apenas uma mulher transformada
é capaz de atravessar.

Cada chave que encontrei
abriu menos o mundo
e mais a mim mesma.

Cuidado com a intenção
que deposita sobre mim.

Há mãos que conhecem a cura,
mas também sabem encerrar ciclos.

Nunca confunda
silêncio com fraqueza,
gentileza com submissão,
ou calma com ausência de força.

Não alimente a ilusão
de que poderá apagar minha existência.

Sou feita das cinzas
de todas as mulheres que precisei deixar morrer.

Recuo apenas
quando escolho mudar de direção.

Porque toda retirada consciente
é também estratégia.

E cada renascimento
me devolve mais inteira.

Não caminho movida pelo rancor.

A vida conhece seus próprios caminhos,
e toda intenção,
cedo ou tarde,
encontra aquele que a semeou.

Minha maior magia
nunca foi destruir.

Foi sobreviver.

Foi transformar feridas em conhecimento,
lágrimas em intuição,
silêncio em sabedoria
e medo em liberdade.

Sou como a lua.

Mudo sem deixar de ser quem sou.

Sou como a floresta.

Mesmo depois do fogo,
volto a florescer.

Sou como a rosa.

Delicada para quem chega com respeito.

Guardada por espinhos
para quem tenta arrancar minha essência.

A mulher de rosas,
chaves
e ossos
não deseja tronos.

Não busca seguidores.

Não quer provar sua força.

Ela deseja apenas
a liberdade de existir inteira.

Livre para pensar.

Livre para sentir.

Livre para escolher.

Porque o maior ritual
não acontece diante de um altar.

Acontece quando uma mulher
tem coragem de atravessar o próprio labirinto,
encarar sua sombra,
aceitar sua morte simbólica
e renascer sem pedir licença.

E quando o mundo voltar a escurecer,
saberei onde encontrar meu caminho.

No silêncio.

Na lua.

Na chave esquecida
que abre apenas aquilo
que a alma está pronta para viver.

Na rosa que floresce
onde muitos enxergam apenas ruínas.

E na antiga voz
que nunca precisou dizer seu nome,
porque sempre falou
através do meu próprio coração.

Pois descobri que a verdadeira feitiçaria
não está em dominar o destino dos outros.

Está em conhecer o próprio,
atravessar a noite sem perder a essência
e fazer da própria vida
o mais sagrado dos rituais.

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